quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O Prego da Peixaria


Tudo o que se diz do Prego da Peixaria é verdade. Sim, é mesmo isso tudo.

E como eu gostei tanto que só consigo descrever a experiência recorrendo a asneiras das fortes e feias, vou-me retrair e acrescentar apenas que a casa não tem multibanco.

Mas os pregos são bons comó ?#"@*&%!










segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

A Mallu


(Bolas, não consigo encontrar os direitos de autor desta imagem)


A Mallu é um anjo que caiu do céu com a graciosidade de um hipopótamo. Não me interpretem mal - digo isto porque o desajeito da menina mulher é provavelmente a coisa mais encantadora que os palcos já conheceram. E a pureza. E a genuinidade.

A Mallu é uma viagem entre Copacabana e uma cave boémia vestida a fumo, em que o único som é a voz clara e o tinir dos copos de vinho.

A Mallu é o nascer do sol, a gargalhada espontânea, a miúda estranha.

A Mallu é um chope ao fim da tarde, um tinto ao rasgar da noite, um sumo de laranja de manhã.

A Mallu é um bálsamo, é melhor que terapia, é maior que yoga, é mais transcendente que meditação.

A Mallu é a cura para todos os males, a fonte da juventude e o sorriso que a vida nos fez esquecer.

E o único defeito da Mallu é que ainda não sabe manipular o tempo. É sempre pouco demais.


quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

O depois

[Príncipe Real, 13 de novembro de 2013]

Travam-se guerras por paixões assolapadas, pelo fogo nas entranhas, pelas borboletas no estômago. Escrevem-se epopeias, jogam-se vidas e perdem-se duelos.

Pelo arrebatamento, pelas arritmias, pelo desassossego que é ter um alguém. Perdem-se noites, saltam-se refeições, atiram-se as mãos à cabeça e grita-se "então é isto que é o amor?". Não. O amor é o depois. O que fica. O que raramente é inspiração de livros ou personagem principal em contos de fadas.

Depois vêm os silêncios, os hábitos, as manias que apoquentam. Vêm os fins de semana sem levantar o cu do sofá, a casa por limpar, o tampo da sanita para cima. Depois vêm os lados da cama, a rotina de almoços e jantares, e os filhos. Depois vêm os filhos. Depois vem a educação, a pressão, as contas, o comodismo.

Mas o amor é o depois. O que fica. A expressão de desespero que se dissipa quando os olhares se cruzam, os sorrisos que se rasgam ao entrar em casa depois de um dia trabalho, as mãos que se abraçam debaixo das mantas do sofá, a serenidade que é plena porque a felicidade precisa de pouco.

O amor é o que fica. O que não se vai embora depois do fogo de artifício, o que limpa os despojos da festa, o que nunca deixa de oferecer ramos de flores. Amor que é amor não tem preguiça, não perde criatividade, não arranja desculpas. Amor é o que fica nos entretantos. É o que não perde a saudade, o que alimenta a irracionalidade, o que acende o ciúme. Amor é o que não tem relógio, o que não tem tempo.

O amor é o que fica, é o depois, é a forma alquímica da pureza de algo que chega ao fim.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

O dicionário Porto-Lisboa


Desta vez, mantendo as imagens do fim de um ano, vou deixar de parte os textos lamechas que já ninguém aguenta e fazer copy-paste do serviço público que alguém, alguma vez, se deu ao trabalho de elaborar. O dicionário Porto-Lisboa. De nada.

sertã - frigideira
loquete - cadeado
repa - franja
pinchar - pular
sapatilhas - ténis
carteira - mala
tacões altos - saltos altos
sostra - sem grande actividade
estrugido - refogado
cruzeta - cabide
guarda-chuva - chapéu de chuva
quarto de banho - casa de banho
picheleiro - canalizador
fino - imperial
espinha - borbulha
pisadura - nódoa negra
foguete - malha nos collants 
testo - tampa da panela

e, em honra do David - e só porque te adoro desmesuradamente:

Pinto da Costa - filho da p*ta.




































segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Saldos, ou, Porque é que eu devia ficar em casa de 28 de dezembro a 28 de fevereiro



(Lisboa, 16 de julho de 2013)

Falta meia hora para o comboio.
Acabei o meu livro, devia comprar um novo.

É isso. Vou só ali à fnac comprar um livro. Só isso.

Plano falhado em 3, 2, 1...

Está bem então. Mas foi só este colete. Eu não tinha nenhum colete de pelo preto pelo joelho. E o desconto era abismal. Vou ter de contar tostões e provavelmente saltar refeições mas eu não tinha mesmo - mesmo - um colete de pelo preto pelo joelho. E todas as mulheres precisam de um colete de pelo preto pelo joelho. Não é?

45 minutos e três lojas depois - nenhuma delas a fnac - começo a hiperventilar no meu ataque de estrogénio (que justifico com uma oscilação hormonal, e não com um ataque de futilidade) e removo-me à força do centro comercial. Fico parada à chuva, em forma de penitência, mas quando começo a pensar que o que eu precisava mesmo era um trench coat para me proteger da chuva que estava a apanhar corro para o comboio, qual diabo que foge da cruz, para que a rede de transportes públicos portugueses seja tudo o que me separa da tentação.

Passo a explicar: não é racional. São cartazes megalómanos, encarnados, com símbolos deste género "%", e é de cultura geral, senso comum, sabedoria popular que a espécie feminina se sente tão atraída pelo símbolo percentual como o Trumps pelo novo single da Lady Gaga. É patológico. É desesperante.

Mas ao menos desespero com um colete de pelo preto pelo joelho.

Droga Humana



Docas, maio de 2013.


Eram viciados em ser, em estar. Na embriaguez sôfrega de quem se apaixona deixou de haver tecnologia, esqueceram-se as redes sociais, apagaram-se as réstias de tempo e espaço que levantam o véu da contemporaneidade.
Ficaram só os vícios. Não o do tabaco, o do vinho, o do gin, o da cerveja ou o da coca. Esses foram-se com as chuvas de um inverno que deixou de ser frio. Ficaram os vícios da carne, do consumo mútuo, do negar de uma existência do exterior. Esqueceram-se dias e noites. Deixaram-se os vícios distraídos e os intencionais. Naqueles anos, os primeiros, queimaram as pontes com o exterior e eliminaram-se um ao outro, sem olhar a consequências, sem saciar os beijos.
E assim ficaram. Os vícios. Em ser, em estar. Em acabar.