sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Felizes para sempre




Stories We Tell (2012)

Não costumo falar de cinema - ela fá-lo tão melhor que eu - mas isto não é (só) cinema.
Isto é uma história, com capítulos incongruentes feitos de verdades que se achavam universais, mas que depressa se despem do preto e branco para assumir a farda cinzenta da ambiguidade.
Isto é uma história mundana, opressiva e esmagadora.  E esta história é tão grande quanto a do Império Romano, tão importante quanto a Revolução dos Cravos, tão marcante quanto o 11 de setembro. Porque esta história é real. Foi contada, foi chorada, foi amada e foi vivida.
Esta é uma história de amor que respirou para nos fazer acreditar na beleza do ser humano, na sensibilidade da incorreção, na alegria do desejo. Esta é uma história que nasceu para ser contada.
E a verdade é que só somos imortais nas histórias que deixamos para contar.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

1 de setembro de 2013


Setembro chegou com passinhos de lã, entre o calor que se arrastava de agosto e as nuvens de outubro que já espreitam ao virar da esquina.
A neblina desceu sobre o pedaço de céu a que eu gosto de chamar casa e, no meio da areia fina e da água cristalinamente gelada, o mês da ponte entre o suor do verão e o aconchego do inverno tirava-nos a visão a longa - ou média - distância.
O nevoeiro era tão cerrado que podíamos andar todos a jogar à cabra cega entre os chapéus que pareciam todos da mesma cor e as pessoas que se fizeram todas da mesma carne. Quais palas nos olhos, avançava-se às apalpadelas até que o mar nos entrava pelos poros, infiltrando-se nos ossos como a benção de quem está vivo. Adeus, verão.











sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Já não se escrevem cartas de amor


 © The Sartorialist


Se calhar já não se escrevem cartas de amor.
Daquelas com papel timbrado, com palavras sem jeito, com poemas improvisados. Daquelas que levavam selo, que eram esperadas com o nervoso miudinho, que faziam o carteiro sorrir com a letra desajeitada do remetente.
Se calhar já não se roubam carinhos num beco escondido, já não se pede permissão ao pai, já não se abotoa a camisa até ao último botão para conhecer a família.
Se calhar já não se pede à menina para dançar no bailarico - se calhar já nem se sabe dançar música de bailarico -, já não se pisca o olho à distância, já não se leva a sério o "para sempre".

Mas o amor está cá. Tatuado e com WhatsApp, promíscuo e desbocado, desavergonhado e sem fronteiras. Está cá com beijos no meio da rua, com apalpões em público, com sextapes. Está cá com emails, com instagrams, com alterações de estado no Facebook.

Enquanto o amor estiver cá, não precisa de cartas para ser inteiro.