domingo, 27 de maio de 2012

A bailarina





Quando a vi, pensei que era um afia.
Depois, pensei que tivesse qualquer coisa dentro, por isso abanei-a.
Depois, em tom de explicação, ele rodou a manivela e disse "É uma caixa de música". Ah! É que eu nunca tinha visto nenhuma. Só em filmes. E pensei que fossem austeras e antigas, e não um pedaço de cartão frágil, quase descartável. Mas a música encantou-me, eu soube que tinha de ser minha, e ela ofereceu-ma (claro).
Acho que, só quando aterrei em casa, desempacotei tudo e voltei à crua realidade, é que a ouvi com atenção - com aquele desejo de que os acordes me levassem de volta a Barcelona. Mas não. Não fosse ter aquele "Gaudi" escrito de lado, qual mina de turistas, eu não diria que a tinha trazido da cidade vibrante, mas antes de uma cave antiga, melancólica, e profundamente triste. É isso - triste. A música parte o coração, semeia lágrimas e colhe corações partidos. Conta a história de uma bailarina condenada às voltas repetitivas da caixa de joias daquela senhora de cara enrugada, que se adorna em pérolas e casacos de pele, que risca assertivamente os olhos com lápis negro e esborrata os lábios com o vermelho de outro século. Que se mascara, todos os dias, de um tempo que já foi, para se sentar na poltrona e afogar os sorrisos das memórias no alcool mais bafiento da dispensa vazia.

E, não sei porquê, não consigo deixar de dar à manivela. E a bailarina não pára de dançar.

domingo, 13 de maio de 2012

No Reservations


É quase um crime como não consigo transferir para as palavras o quanto estou embevecida pelo episódio do No Reservations sobre Lisboa.
Mas como é com palavras que ganho a vida, cá estou eu a tentar.
O meu amor por Lisboa roça o absurdamente inexplicável, quase como aquelas paixões doentes cujas feridas físicas e emocionais - sim, estou de ti, calçada, e de todos os pares de sapatos que já molestaste - não conseguem ver um fim no horizonte. E, hoje, cresceu.
Porque a frontalidade quase cruel de Bordain não lhe permitiria embelezar uma cidade que já não tivesse "bela" inscrita no DNA, e, por mais que tenham mostrado um povo profundamente idoso e melancólico (bom... é isso que somos), voltei a apaixonar-me por Lisboa.
Fiquei com vontade de me embebedar com ginginha e subir o Chiado aos zigue-zagues, comer uma bifana cheia de gordura e ouvir fado embriagado pela dor de um tempo que não chegámos a viver. Fiquei com saudades de ouvir a voz desconcertante da Carminho e sentir a alma lisboeta pulsar em cada nota da guitarra triste, de me deitar na relva dos jardins de Belém ou de ver os barcos partir e chegar, sem fazer absolutamente nada da vida que não fosse sorrir.

E tenho pena que não tenham mostrado o movimento dos nossos museus ou o Bairro à noite, a gente gira do Príncipe Real ou uma ou outra pessoa jovem. Aqui e ali, somos novos e giros, e Lisboa também é nossa.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Te quiero, Barcelona






Começo a achar que fiz duas viagens numa só.
Na primeira, apaixonei-me por Barcelona. Pelo Born e pelo Barri Gótic, pelas pessoas com pinta a passear os cães, pelas Vespas e bicicletas, pelo coolness palpável, pela beleza, pelo sotaque, pelo cheiro, pelas varandas com roupa, pelas alpercatas, pela paella e pela sangria que nem consigo beber, pelo sol de primavera, pelo fervilhar de uma cidade que respira pureza. E eu quero fazer parte dela.

E na segunda, adjeta, paralela, consequente e impulsionante, pela companhia. Pelas madrugadas com conversas de tudo e de nada, pelos risos intermináveis e sorrisos íntimos, pela confiança desmesurada numa amizade que se provou ser para ficar. E também pelos arrufos e perdões, pelas perdas e recuperações, pelos abraços e momentos que ficam mais marcados que a tal tatuagem que não cheguei a fazer.